Se descobrir

baneheira2

Descobrir-se gay é um momento dos mais difíceis da vida de qualquer um que passa por isso (Embora para alguns nem sempre seja problema) essa descoberta é um processo lento e doloroso, de angústias, dúvidas e negações. Arrisco-me a dizer que as negações são até maiores do que as dúvidas no final das contas…enfim…

Lembro nitidamente que, quando guri, me chamava atenção na TV um programa que exibia strip-tease masculino, e o corpo masculino me interessava. Por que um garoto de sete a oito anos gostava de ver isso? Eu mesmo não entendia. Não havia tesão, não pensava em sexo e sequer sabia que existiam. Adorava ver aquilo, no entanto.

Mais tarde, já aos onze ou doze anos, enquanto os coleguinhas demonstravam o primeiro interesse pelas meninas, eu me via totalmente apático. O que meus amigos viam nas meninas? Eu não via nada! Não havia graça nenhuma naquilo!

Sem ter o assunto ‘garotas’ como repertório nas conversas com os amigos homens, me sobrava o assunto ‘futebol’. Futebol, entretanto, nunca foi assunto para mim: sempre detestei, a não ser por raros momentos como a final da copa de 94, e que mesmo assim foi mais um rasgo de nacionalismo do que um de ‘futebolismo’.

Sem os dois motes ‘garotas e futebol’  não me restava assunto com os garotos. Eu não tinha o ‘papo de menino’, embora também não me mostrasse com traços femininos, tão menos assuntos femininos.

A saída foi mergulhar na minha própria timidez, que já era e sempre foi grande. Criei aos poucos meu mundo paralelo, onde todas as coisas fluíam para um único rumo: o futuro. Como assim?

No meu mundo paralelo, minhas ações buscavam o futuro como forma de acabar com aquele presente cada vez menos presente que me atormentava. Um presente do qual eu não participava, não queria participar, mas não conseguia entender o porque…

Com 15 anos mudei de escola. Era o ensino médio e os colegas ‘e eu mesmo’ já não eram tão crianças. O início da grande descoberta se deu na aula de educação física, ou melhor, depois dela, no horário do banho. Aquele banheiro insuportavelmente quente, com cheiro de suor e sabonete e com aqueles garotos seminus na minha frente fazia com que meu corpo reagisse, se é que o leitor pode me entender.

Era desejo, um desejo que tentava me transpor a todo momento do meu mundo paralelo e ao qual eu relutava atender, relutava estender, relutava entender. Pela primeira vez desejo. Pela primeira vez tesão. E pela primeira vez pensava em sexo, ainda que eu não tivesse a menor noção de como seria isso.

Paralelamente, circulava entre os meus amigos as revistas de nu feminino, que eu via e revia sem sentir absolutamente nada. Via tais revistas quase que como para cumprir uma função social. Enquanto meus amigos se deleitavam com a Carla Perez, com as Sheilas do Tchan e com tantas outras ‘gostosas’, meu deleite era por eles, por eles e por outros garotos e homens que eu encontrava nos corredores da escola, que eu via na TV ou que simplesmente cruzavam meu caminho nas ruas.

Isso durou bastante, mas eram desejos que eu mesmo não compreendia. Ou não queria compreender. Ou que compreendia, mas lutava contra.

Chega uma hora, porém, que a realidade torna-se mais real e você não pode mais brincar de não saber. Chegou a hora em que o mundo paralelo que eu criei, onde vivi minhas dúvidas e angústias, não dava mais conta de resolver os problemas e sequer conseguir contá-los.

Chegava a hora de sair deste mundo paralelo, este mundo que foi por tanto tempo confortável apesar de tudo, e assumir uma posição diante do mundo real. Não tive coragem, todavia. E te pergunto, leitor: você teve? Terá um dia?

O mundo real era perigoso demais para quem sentia o que eu sentia. E meu mundo paralelo, com toda sua infantilidade, era frágil demais para me conter naquele momento. A opção foi me inserir num novo mundo paralelo, não mais no meu mundo, num mundo que outrora eu criei, mas sim um mundo no qual muitos já estavam anonimamente inseridos, ainda que eu não soubesse disso naquele momento.

E foi assim que, aos 17 anos, entrei no armário…

Edu.

(continua)

Article Tags : , , , ,
Rafael Telles

Criei o GPA numa fase em que me encontrava no armário e foi com ele que consegui abrir as portas para o mundo. Minha intenção com o Gay por Acaso é apenas a de tentar fazer com que essa transição seja mais tranquila para todos que passam por essa fase (quase sempre difícil) de se assumir gay. Vou mostrar que essa é apenas uma das milhões de características que você tem, e a informação isolada de que você é gay não diz nada sobre você!

Related Posts
minecraft-escadona-namoro-virtua

Discussion about this post

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *