A irrealidade

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Se entrar no armário não foi uma tarefa fácil, tampouco é fácil viver nele. Aos 17 anos os hormônios estão a mil e o corpo sente necessidades…

Estar no armário é automaticamente ter que administrar duas vidas que, na maioria dos casos, são completamente antagônicas. Tudo bem que, no meu caso, o leitor já sabe que eu tinha meu mundo particular, onde eu me inseria e me escondia mesmo antes de me dar conta de que era gay. Mas ele não era um mundo que eu necessariamente temia e que precisava esconder das pessoas.

O armário, por sua vez, é o mundo que surge exatamente porque queremos nos esconder. Eu, aos 17, não tinha ainda a menor idéia de como administrar meu armário rs… E me mantive inativo nesse mundo até meus 20 anos. Foi quando eu descobri a internet.

A internet me levou a um mundo desconhecido e me permitiu “sair virtualmente” do armário. Nas salas de bate-papo fui descobrindo aos poucos que, ao contrário do que eu pensava, eram muitos na mesma situação que eu. Descobri que a verdade não era uma constante nas conversas, e que os tipos ideais eram os predominantes no mundo virtual, ao mesmo tempo em que não eram nada daquilo no mundo real. E descobri, também, que os pensamentos e objetivos destas pessoas que encontrava no chat eram absolutamente diferentes dos meus.

Foda. Pegação. Foda. Sarro. Foda. Punha na cam. Foda. Esse era o assunto (e é ainda) no chat. Frases curtas como “o q vc curte?”, “afim de um sarro?”, “atv ou pas?”,”e aí, topa real?” eram as perguntas centrais das conversas, banalizando algo que eu até então acreditava ser puro: o sexo. Eu não achava que isso fosse o “fim do mundo” e muito menos que o mundo devesse pensar igual a mim, mas me reservava no direito de procurar algo mais do que apenas um envolvimento sexual.

E diante de tanta gente que não tinha nada a ver comigo, apareceu o Claudio… Alto, moreno, corpo bonito, bem sucedido, viajado, mais velho e experiente, me encantei com a conversa dele. Talvez seu único defeito fosse o lugar onde ele morava: o Canadá. PQP! Por que justamente o único cara que eu gostei depois de dois anos procurando na internet tinha que morar tão longe? Na hora, lotado de sonhos e ilusões, dei asas à imaginação e não liguei para este “pequeno” detalhe.

Foram uns sete meses teclando praticamente todos os dias. Quando um ou outro não apareciam no MSN, no dia seguinte era aquela perguntação rs… Existia um sentimento – ou pelo menos era isso que eu julgava. Havia cobranças, promessas de fidelidade e de sentimentos e, obviamente, deliciosas conversas picantes… conversas estas nas quais muitas vezes eu, na minha ingenuidade de então, me via obrigado a recorrer ao Google para entender sobre o que se tratava.

Claudio trabalhava lá, era um engenheiro, conhecia muitos países. A foto dele que eu mais gostava era uma em que ele estava próximo a uma geleira, com uma bandeira da Suécia tremulando ao fundo. Um dia, por sorte, marcaram uma vinda ao Brasil para trabalhar uma temporada, e ele mais que na hora foi eufórico me contar a notícia, já avisando que com certeza viria a minha cidade para nos encontrarmos.

Poucos dias depois o Claudio me disse que teria que adiantar a vinda ao Brasil, pois seu pai estava muito doente e iria fazer uma cirurgia. Disse também que ia demorar um pouco a ir para minha cidade porque iria aproveitar para fazer um tratamento odontológico aqui no país. E foi a última vez que falei com Claudio…

Nunca soube se ele realmente existiu. Aliás, existir, ele existiu. Mas seria ele mesmo nas fotos? Seria ele engenheiro, morando no Canadá? E as coisas que ele me disse, seriam verdades? Se a resposta fosse “sim” para estas perguntas, por que teria ele sumido? Jamais vou saber…

E foi assim que, no armário, aos 20 anos, tive minha primeira desilusão amorosa…

Por Edu (continua…)

Rafael Telles

Criei o GPA numa fase em que me encontrava no armário e foi com ele que consegui abrir as portas para o mundo. Minha intenção com o Gay por Acaso é apenas a de tentar fazer com que essa transição seja mais tranquila para todos que passam por essa fase (quase sempre difícil) de se assumir gay. Vou mostrar que essa é apenas uma das milhões de características que você tem, e a informação isolada de que você é gay não diz nada sobre você!

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